A apicultura como produção no seu esplendor
Data: Thursday, August 28 @ 10:41:44 CEST
Tema: 2008.08.28



Diferentes formas de consumir o mel é o que Carlos Teixeira produz há 20 anos. Vinagres de mel, aguardente e hidromel são os produtos “especiais” que este apicultor deu a conhecer ao FrenteOeste.

Abandonou a função pública há 20 anos, mas já faz apicultura há 21. Foi nesta altura que Carlos Teixeira abriu a sua empresa familiar de produção de mel e seus derivados.

“A apicultura começa na família em 1860 com o sogro do meu avô e depois passou para o meu avô, para o meu pai e agora sou eu, ou seja, estamos na quarta geração de apicultores, mas o único como apicultor profissional sou eu, porque com os outros funcionava como hobby”, revelou Carlos Teixeira ao FrenteOeste. “Mas”, continua, “a apicultura para mim começa por tendência normal dos avós tentarem passar o gosto que têm, neste caso o meu avô, logo de muito novo, começou a levar-me para as abelhas com ele, com a intenção de passar ao neto o gosto que tinha pelas abelhas. Depois seguiu o meu pai, com uma pequena dimensão e eu é que em 1987 decidi abandonar a função pública, cansei-me de ser funcionário público, fugi de Lisboa e vim para um sítio mais sossegado, para a Fonte Grada”.

Entrando na fábrica de Carlos Teixeira, a “Apiagro”, fica-se numa antecâmara (isolada) onde as caixas com mel, na altura em que estão a ser feitas as colheitas, são descarregadas para esse local. Passada a parte da antecâmara entra-se para a zona interna da fábrica que está dividida por vários sectores e é aqui que tudo começa.

As caixas com mel quando chegam do campo são armazenadas numa câmara quente (câmara de alças) que está a 35 graus, “que é a temperatura de uma colmeia”, depois os favos com mel passam numa máquina que faz a desoperculação, daqui seguem para o centrifugador onde se separa o mel da cera e onde o mel em estado líquido vai caindo na base do centrifugador, “a única coisa que se faz é retirar o mel sem destruir a cera”. Depois o mel é mantido em bidão até ao momento em que é decidido o futuro desse mel, “o que é para sair em bidão sai em bidão o que é para ser embalado entra para a câmara quente de decantação e enchimento”, explicou o apicultor.

Após a entrada do mel neste sector, os bidões são despejados num banho-maria que gera o aquecimento do mel. A partir daí todo o mel vai para o decantador e “leva, em média, uma semana antes de ser feita a embalagem, tempo que leva a cera e as bolhas de ar virem ao de cima”. Depois de embalado entra-se para o sector de rotulagem e exposição.

Além do mel, Carlos Teixeira produz vinagres de mel, hidromel, aguardente de mel, pão de abelha, “produtos que são genuinamente nossos”, mel com frutos secos, pólen e sabonetes.

Segundo o apicultor “sou, praticamente, o único profissional a nível local e se calhar a nível nacional a produzir estas formas diferentes de consumir mel”. Não descurando a hipótese “que qualquer pessoa pode fazer o que faço, porque a tecnologia é universal”, pois “eu nunca descobri nada, eu apenas aplico os conhecimentos científicos que existem, sou capaz de estar com uns anos de antecipação em relação aos outros, mais nada. Porque optei por enveredar no sector de transformação de mel, porque o mercado do próprio mel está um pouco saturado”.

A criação de produtos derivados do mel “é uma mais valia que me permite ter uma margem de rentabilidade melhor e que possibilita ter acesso a mercados que de outra maneira não conseguia, como é o caso do mercado angolano. Neste momento, estou a tentar entrar neste mercado com o vinagre, a aguardente e o hidromel e não com o mel, porque eles também têm, o que não têm são as várias maneiras de consumir mel”.

Carlos Teixeira aconselha a não se consumir mel apenas quando estamos constipados e que funcione “apenas como mezinha, como remédio”, pois é “incorrecto, porque normalmente as pessoas com maior longevidade são as que consomem diariamente produtos apícolas”, pois estes são “uma excelente fonte de saúde”.

A produção

Carlos Teixeira está bem colocado no mercado nacional “a produção deste ano foi de 33 toneladas de mel, o que é uma boa produção”. Mas pensa em expandir o seu negócio para o mercado exterior, principalmente com os derivados do mel. “É uma empresa pequena mas tem vindo a crescer e vai continuar a crescer, pois existem projectos para crescer bastante, clientes potenciais que vão permitir dar um salto muito grande”.

O próximo investimento que pensa fazer é criar um sector de produção de hidromel, “já foi pedido o licenciamento à Câmara Municipal de Torres Vedras, para construir um sector de produção, em que deverei produzir 80 mil garrafas de hidromel por ano, não só para o nosso mercado mas sobretudo para o mercado de exportação, pois já tenho clientes para isso e espero que antes do final do ano esteja concluído, para começar a produzir”. Além disso “espero ainda que no próximo ano consiga fazer uma unidade de produção de vinagre de mel em que vai ser um milhão de garrafas por ano, também para o mercado externo”.

Os produtos de mel

Segundo o apicultor, Carlos Teixeira, “o mel pode ser consumido de várias maneiras”.

Uma delas é pelo próprio mel. São vários os tipos de mel que Carlos Teixeira produz: urze, eucalipto e rosmaninho. “Conforme é a origem floral assim é o tipo de mel que é produzido, posso dizer que o mel tem um bilhete de identidade, cada um deles mantém as fragrâncias das plantas que lhes deram origem. O mel distingue-se pela cor, cheiro e aspecto”.

“Tudo o que é doce pode ser fermentado e o mel não é excepção e a base da fermentação corresponde a fazer um vinho de mel que se chama hidromel, depois se destilo faço aguardente se atepifico faço vinagre”, disse o produtor. Este é o instrumento base desses três produtos: o Vinagre de mel: que segundo o apicultor “é mais suave que o vinagre de vinho, tem a particularidade de ser muito rico em enzimas e no processo de fabrico como as temperaturas não são elevadas não há destruição enzimática. Além do mais este género de vinagre facilita a digestão e reduz a libertação de gases intestinais. Para este motivo o vinagre deve ser utilizado em cru, evitando a sua destruição pela fervura”; a Aguardente de mel que começou a produzir em 1991; e o hidromel que, “existiu até à Idade Média, mas com a cultura da vinha as tradições de hidromel, principalmente em toda a zona mediterrânica, desapareceram. Quem ainda mantém alguma tradição são os nórdicos. Na Grécia antiga, os gregos diziam que os deuses que viviam no Olimpo comiam ambrósia e bebiam hidromel. Podemos considerar o hidromel semelhante ao que um actor de teatro faz quando bebe um cálice de vinho do Porto, antes de entrar em palco: relaxa. A partir do momento que a pessoa está calma, está relaxada tudo funciona bem.” O hidromel é uma bebida alcoólica fermentada à base de mel e água. Existia a tradição de que os casais recém-casados deveriam consumir esta bebida durante o primeiro ciclo lunar após as bodas para nascer um filho varão. Daí surgiu a tradição actual da lua-de-mel.

O Pão de Abelha é um dos produtos mais raros que o apicultor tem. “É o pólen como as abelhas o comem. As abelhas colhem o pólen às bolinhas no campo mas não o consomem como o colhem porque o pólen tem uma estrutura celulósica para proteger o grão de pólen, que é difícil de digerir pelas abelhas, quando o colhem juntam enzimas e depositam nos favos, apertam com a cabeça para retirar o ar e com as enzimas que depositam, com a humidade e com a temperatura que está dentro da colmeia vai haver uma fermentação, que elas fazem como se fosse uma fermentação láctea, como se criassem um iogurte de pólen, só depois disso é que o comem, quando ela está fácil de digerir e muito rico em enzimas. Assim, passa a ser um tipo de pólen que fica armazenado nos favos para elas consumirem, quando eu o retiro ele é misturado com mel para permitir a decantação e a libertação das partículas de cera, por isso é que tem um aspecto semelhante a uma geleia. O pão de abelha é excelente para o organismo, é óptimo para o bom funcionamento do fígado. O pão de abelha tem a particularidade de fornecer uma parte de pólen e simultaneamente de mel.”

O pólen “tem o complexo vitamínico praticamente total como a nível mineral. São os espermatozóides do reino vegetal, como células vivas que são têm todos os elementos necessários à vida.”

A Geleia Real é um produto segregado pelas glândulas hipofaríngeas das abelhas obreiras e serve de alimento à abelha rainha durante toda a sua vida. Estudos científicos, mostraram que a geleia real regulariza o metabolismo, exerce uma acção diurética, aumenta a resistência do organismo às infecções, enriquece a composição sanguínea, regulariza o funcionamento das glândulas endócrinas e utiliza-se com sucesso em caso de arterioesclerose e insuficiência coronária. O uso de geleia real é também aconselhado em casos de fadiga, stress e depressão, pois permite uma recuperação das forças, um aumento do apetite, alegria e uma sensação de euforia.

No sector de higiene e beleza, Carlos Teixeira tem os sabonetes: o de mel e o de própolis e aloé vera. O primeiro “é hidratante por natureza, para quem tem problemas de pele seca torna a pele muito suave, muito hidratada”, o segundo “tem propriedades anti-cépticas cativantes para quem tem problemas de pele, é eficaz no seu tratamento”.

Assim, segundo o apicultor e produtor “o mel pode ser consumido de diferentes maneiras”.

Marina Tovar Rei






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